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João Manuel Calisto Ramos Franco
Caldas da Rainha - Passado Presente e Futuro
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domingo, 20 de Dezembro de 2009

A Certeza da Data













Castelo de Óbidos – Natal - Álbum Digital Olhares

A Certeza da Data

….. “É a certeza da data que imprime realidade às coisas que, sem essa certeza encarnadora, apenas passadas, se desfariam na diafaneidade e impalpabilidade do Tempo.
Todo o nosso viver consiste num rolo de sonhos que se vão desprendendo de nós, fugindo para trás como o fumo de uma tocha que corre, depressa adelgaçados, logo esvaídos. São as datas que prendem, retêm esses sonhos: nelas ficam imóveis, em torno delas se condensam, por elas ganham forma e duração.
Foi entrevendo esta verdade que Bossuet, numa grande imagem, comparou os dias felizes de uma existência a pregos de ouro cravados numa parede escura. Esses pregos eram as datas, onde as venturas dessa existência, que já voavam, se iam dissipar na eternidade, ficaram presas, imóveis, resplandecendo como pontos de ouro.”

Eça de Queirós in 'Notas Contemporâneas'

Bing Crosby - Silent Night

segunda-feira, 14 de Dezembro de 2009

O Rápido Passar do Tempo…















Cine–Teatro Pinheiro Chagas

O Rápido Passar do Tempo…

“O ócio torna lentas as horas e velozes os anos. A actividade torna rápida as horas e lentos os anos. A infância é a actividade máxima, porque ocupada em descobrir o mundo na sua diversidade.
Os anos tornam-se longos na recordação se, ao repensá-los, encontramos numerosos factos a desenvolver pela fantasia. Por isso, a infância parece longuíssima. Provavelmente, cada época da vida é multiplicada pelas sucessivas reflexões das que se lhe seguem: a mais curta é a velhice, porque nunca será repensada.
Cada coisa que nos aconteceu é uma riqueza inesgotável: todo o regresso a ela a aumenta e acresce, dota de relações e aprofunda. A infância não é apenas a infância vivida, mas a ideia que fazemos dela na juventude, na maturidade, etc. Por isso, parece a época mais importante, visto ser a mais enriquecida por considerações sucessivas.
Os anos são uma unidade da recordação; as horas e os dias, uma unidade da experiência.”

Cesare Pavese in 'O Ofício de Viver'

Casablanca - As Time Goes By

segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

- Uma viagem…
















Praça da Republica - Caldas da Rainha

- Uma viagem…

È difícil calcular a data da partida, sabemos a data de nascimento, mas o conhecimento de tudo o que nos envolve retarda a exactidão de quando começámos a caminhada…

Factos reais, a casa paterna, o local onde nascemos e a ida para escola, funcionam na nossa mente como “apeadeiros” dum percurso, em que temos a certeza que fizeram parte da viagem.

Mas rapidamente o tempo vai marcando outras etapas do caminhante, sem ele dar conta, e a certo momento ele apercebesse de que a distância percorrida desde o início já vai grande…

- Parar a viagem é impossível.

Resta-nos a memória e as recordações de cada etapa para fazer o percurso inverso.

O sermos positivos nesta atitude conta como ponto construtivo, mesmo que algo mau haja na recordação, será apenas uma alteração percurso da qual temos consciência, (conta apenas como experiencia); as nossas palavras retratam imagens e pessoas numa sociedade em constante mutação, em que recordaremos o belo e bom encontrados nesta viagem, que nada mais é que nossa vida.

João Ramos Franco

Gilbert Becaud - Desiree (1985)

sexta-feira, 4 de Dezembro de 2009

Compreender e Unir






















Agostinho da Silva

Agostinho da Silva - Solidão, Tolerância, Trabalho e Poesia


Compreender e Unir

“Já são em número demasiado os que vieram ao mundo para combater e separar; o progresso e valor de cada seita e de cada grupo dependeram talvez desta atitude descriminadora e intransigente; aceitemos como o melhor que foi possível tudo o que nos apresenta o passado; mas procuremos que seja outra a atitude que tomarmos; lancemos sobre a terra uma semente de renovação e de íntimo aperfeiçoamento.
Reservemos para nós a tarefa de compreender e unir; busquemos em cada homem e em cada povo e em cada crença não o que nela existe de adverso, para que se levantem as barreiras, mas o que existe de comum e de abordável, para que se lancem as estradas da paz; empreguemos toda a nossa energia em estabelecer um mútuo entendimento; ponhamos de lado todo o instinto de particularismo e de luta, alarguemos a todos a nossa simpatia.
Reflitamos em que são diferentes os caminhos que toma cada um para seguir em busca da verdade, em que muitas vezes só um antagonismo de nomes esconde um acordo real. Surja à luz a íntima corrente tanta vez soterrada e nela nos banhemos. Aprendamos a chamar irmão ao nosso irmão e façamos apelo ao nosso maior esforço para que se não quebre a atitude fraternal, para que se não perca o dom de amor, para que se não cerre o coração à mais perfeita voz que nos chama e solicita.
Não os queremos trazer ao nosso grémio nem ingressar no deles; apenas desejamos que da melhor compreensão entre uns e outros, do conhecimento das essências, se erga a morada de um Pai que não distingue entre os eleitos e a todos por igual protege e incita; cada um ficará em sua lei; só pretendemos que não tome os de leis diferentes por implacáveis inimigos ou por almas perversas e perdidas; são homens como nós e vão-se dirigindo ao mesmo fim; desde já os vejamos como futuros companheiros.”
Agostinho da Silva in 'Considerações'

quinta-feira, 3 de Dezembro de 2009

"E Agora?..." Antigos Alunos do ERO
















Temas para o Blogue do ERO.
O post "E Agora?", do João Jales, deu-me a entender que havia dificuldade em encontrar novos temas para lançar no Blogue. Não me parece, até porque muitas das conversas que ouvi no Encontro poderiam ser esses novos temas.
O JJ, em busca solitária talvez não os veja, mas todos nós, comentadores, temos de o ajudar; o blogue é o local onde nos encontrámos, reencontrámos e recordámos, e não pode nem deve parar, temos o dever de contribuir para que tal não aconteça. Criar uma comissão, entre nós, será o modo de dar continuidade a todo este processo.
A reunião de 14 de Novembro deve-se ao Coordenador e a nós compete retribuir ajudando a manter o Blogue. Meus caros colegas, reflectir e avançar, criar uma comissão que colabore com João Jales é a minha proposta, estou disponível para ajudar, mas conto com a vossa resposta à minha sugestão.
Um abraço amigo
João Ramos Franco

Joe Cocker - N'oubliez Jamais

sábado, 28 de Novembro de 2009

A Perturbação do Último Acontecimento






















Projecto (meu) de capa, para uma colectânea de obras do Luiz Pacheco

A Perturbação do Último Acontecimento

“A vida de uma pessoa consiste num conjunto de acontecimentos no qual o último poderia mesmo mudar o sentido de todo o conjunto, não porque conte mais do que os precedentes mas porque, uma vez incluídos na vida, os acontecimentos dispõem-se segundo uma ordem que não é cronológica mas que corresponde a uma arquitectura interna. Uma pessoa, por exemplo, lê na idade madura um livro importante para ela, que a faz dizer: "Como poderia viver sem o ter lido!" e ainda: "Que pena não o ter lido quando era jovem!". Pois bem, estas afirmações não fazem muito sentido, sobretudo a segunda, porque a partir do momento em que ela leu aquele livro, a sua vida torna-se a vida de uma pessoa que leu aquele livro, e pouco importa que o tenha lido cedo ou tarde, porque até a vida que precede a leitura assume agora uma forma marcada por aquela leitura.”

Italo Calvino in "Palomar"

O facto de no último post ter citado, “Luiz Pacheco – Exposição na Galeria da Biblioteca Nacional”, levou-me a reflectir como sou perante os acontecimentos, neste caso, que me são gratos. Não porque exista em mim uma falta de um sentir próprio pelo Luiz Pacheco, mas o sentir colectivo que levou a esta exposição, merecida para mim, nunca pensei que despertasse tão cedo.
João Ramos Franco

Fly Me To The Moon - Tony Bennett

quinta-feira, 26 de Novembro de 2009

Luiz Pacheco – Exposição na Galeria da Biblioteca Nacional






















Catálogo da Exposição(retirado do site da BNP)

Como amigo, que acompanhou com o Luiz Pacheco e que partilhou a vida com ele, debaixo do mesmo teto, que o viu escrever muito do que mostram nesta exposição, exprimo o meu agradecimento à organização.
João Ramos Franco

Luiz Pacheco | Contraponto:
um homem dividido por dois
EXPOSIÇÃO | 26 de Novembro 2009 a 27 de Fevereiro 2010 | Galeria | Entrada livre
Escritor e editor, Luiz Pacheco (1925-2008) desde cedo revelou uma personalidade polémica e com reputação de «marginal»; mas não foi cedo que se revelou literariamente e, aliás, de um modo esparso, em revistas e jornais. Próximo do surrealismo, de cujos cultores mereceu, aliás, amizade como Mário Cesariny ou António Maria Lisboa, classificou-se a si mesmo, porém, como neo-abjeccionista.

A exposição organizada na BNP, com profuso (duplo) catálogo editado conjuntamente com a Leya, procura reunir a dupla faceta de autor e editor sob a sugestiva epígrafe «1 homem dividido vale por 2». Descerra-se, deste modo, uma prolífica actividade de poeta, prosador e crítico de Caca, cuspo & ramela (1958) ou Comunidade (1964), a Crítica de circunstância (1966) ou Diário remendado. 1971-1975 (2005); em reverso, as inúmeras edições do seu Contraponto, editora por si criada em 1950 e que foi matriz de diversos autores de vanguarda.
(retirado do site da BNP)

Gilbert Bécaud - Quand il est mort le poete [les paroles]

terça-feira, 24 de Novembro de 2009

O Engano da Bondade






















- Viver com a Bondade como principio, tem sido lema meu, mas de momento reencontro-me com as palavras de Pablo Neruda e reparo que a realidade nos obriga a reflectir no modo e circunstâncias como a distribuímos…
JRF

O Engano da Bondade

Endureçamos a bondade, amigos. Ela também é bondosa, a cutilada que faz saltar a roedura e os bichos: também é bondosa a chama nas selvas incendiadas para que os arados bondosos fendam a terra.
Endureçamos a nossa bondade, amigos. Já não há pusilânime de olhos aguados e palavras brandas, já não há cretino de intenção subterrânea e gesto condescendente que não leve a bondade, por vós outorgada, como uma porta fechada a toda a penetração do nosso exame. Reparai que necessitamos que se chamem bons aos de coração recto, e aos não flexíveis e submissos.
Reparai que a palavra se vai tornando acolhedora das mais vis cumplicidades, e confessai que a bondade das vossas palavras foi sempre - ou quase sempre - mentirosa. Alguma vez temos de deixar de mentir, porque, no fim de contas, só de nós dependemos, e mortificamo-nos constantemente a sós com a nossa falsidade, vivendo assim encerrados em nós próprios entre as paredes da nossa estuta estupidez.
Os bons serão os que mais depressa se libertarem desta mentira pavorosa e souberem dizer a sua bondade endurecida contra todo aquele que a merecer. Bondade que se move, não com alguém, mas contra alguém. Bondade que não agride nem lambe, mas que desentranha e luta porque é a própria arma da vida.
E, assim, só se chamarão bons os de coração recto, os não flexíveis, os insubmissos, os melhores. Reinvindicarão a bondade apodrecida por tanta baixeza, serão o braço da vida e os ricos de espírito. E deles, só deles, será o reino da terra.

Pablo Neruda in "Nasci para Nascer"

Edith Piaf L'Hymne à l'amour

quinta-feira, 19 de Novembro de 2009

O Passado como Base para o Presente















O Passado como Base para o Presente

O tempo, na sua marcha, utiliza e destrói o que é temporal. Também nele existe mais eternidade no passado que no presente. Valor da história efectivamente cumprida, semelhante à da recordação em Proust. Deste modo, o passado apresenta-nos qualquer coisa que é, simultaneamente, real e melhor que nós, e que pode empurrar-nos para cima, coisa que o futuro nunca faz.
Simone Weil in 'A Gravidade e a Graça'

O Presente…
A minha rotura com tudo o que li, não aconteceu, mas um certo modo de estar na vida, afastou-me do hábito de leitor atento…
A publicação de citações, funciona em mim como um recuperar da cultura que no quotidiano da vida fui deixando para trás.
O estar consciente de que determinados elos da corrente de pensamento estavam quebrados, leva-me a este exercício de revisão literária, para que possa reencontrar a estrutura de pensamento que fui criando.
O ter acompanhado com intelectuais, não fez mim um deles, mas ajudou-me a ter consciência das minhas limitações e mostrar-me apenas como alguém para quem o saber próprio tem de ser utilizado com humildade.
Todo o acumular de experiencia vivida faz-me olhar para o passado, ter a sensação de que algo se passou não como queria, o caminho percorrido não foi fácil, mas satisfaz-me ter hoje consciência de nada me alterar a essência do pensamento.
Assumir a realidade actual é uma necessidade que estimula o percurso que decidi tomar.
João Ramos Franco

Demis Roussos - Forever and Ever

quinta-feira, 12 de Novembro de 2009

A Luta pela Recordação






















Pablo Neruda

A Luta pela Recordação

Os meus pensamentos foram-se afastando de mim, mas, chegado a um caminho acolhedor, repilo os tumultuosos pesares e detenho-me, de olhos fechados, enervado num aroma de afastamento que eu próprio fui conservando, na minha pequena luta contra a vida. Só vivi ontem. Ele tem agora essa nudez à espera do que deseja, selo provisório que nos vai envelhecendo sem amor.
Ontem é uma árvore de longas ramagens, e estou estendido à sua sombra, recordando.
De súbito, contemplo, surpreendido, longas caravanas de caminhantes que, chegados como eu a este caminho, com os olhos adormecidos na recordação, entoam canções e recordam. E algo me diz que mudaram para se deter, que falaram para se calar, que abriram os olhos atónitos ante a festa das estrelas para os fechar e recordar...
Estendido neste novo caminho, com os olhos ávidos florescidos de afastamento, procuro em vão interceptar o rio do tempo que tremula sobre as minhas atitudes. Mas a água que consigo recolher fica aprisionada nos tanques ocultos do meu coração em que amanhã terão de se submergir as minhas velhas mãos solitárias...

Pablo Neruda in "Nasci para Nascer

A Mis Amigos (Alberto Cortez)

segunda-feira, 9 de Novembro de 2009

A Inspiração da Leitura






















Vergílio Ferreira

A Inspiração da Leitura

Fala-se às vezes de 'inspiração' a propósito de quem escreve uma obra. Mas nunca se diz isso de quem a lê. Mas lê-la é escrevê-la outra vez. E é preciso estar-se inspirado para o conseguir bem. A inspiração possível de quem escreve um livro cumpre-se nele sem mais para o autor. Mas a de quem o reescreve, ou seja lê, é sempre variável. Ela varia não só com o desgaste da repetição da leitura, mas ainda com a variação dessa variação e o motivo dela. Porque por arranjos incognoscíveis pode alternar a adesão com a repulsa e recuperar depois em adesão o que repelira e o contrário. Como pode tudo ter que ver com razões mais cognoscíveis ou razoáveis e tudo depender assim de um insulto que nos doeu ou de um vinho que nos caiu mal. Um livro que se escreveu é imutável. O mesmo livro que se lê não o é. A inspiração de quem escreveu deu o que tinha a dar. A de quem o recebe varia e não se esgota. Porque se se esgotar, o livro não tinha nenhuma.

Vergílio Ferreira in 'Escrever'

Chet Baker Live (Belgium 1964) : Time After Time

sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

Falar Várias Línguas Apaga a Individualidade Nativa

















Eça de Queirós

Falar Várias Línguas Apaga a Individualidade Nativa

O esforço contínuo de um homem para se exprimir, com genuína e exacta propriedade de construção e de acento, em idiomas estranhos—isto é, o esforço para se confundir com gentes estranhas no que elas têm de essencialmente característico, o Verbo—apaga nele toda a individualidade nativa. Ao fim de anos esse habilidoso, que chegou a falar absolutamente bem outras línguas além da sua, perdeu toda a originalidade de espírito—porque as suas ideias, forçosamente, devem ter a natureza, incaracterística e neutra, que lhes permita serem indiferentemente adaptadas às línguas mais opostas em carácter e génio. Devem, de facto, ser como aqueles «corpos de pobre» de que tão tristemente fala o povo—«que cabem bem na roupa de toda a gente».

Eça de Queirós, in 'A Correspondência de Fradique Mendes'

Gilbert Becaud-Et maintenant(1962)

terça-feira, 3 de Novembro de 2009

A (Má) Emoção Controlada Pela Razão






















Bertrand Russell

A (Má) Emoção Controlada Pela Razão

“Há a ideia de que quando se concede à razão inteira liberdade ela destrói todas as emoções profundas. Esta opinião parece-me devida a uma concepção inteiramente errada da função da razão na vida humana. Não é objectivo da razão gerar emoções, embora possa ser parte da sua função descobrir os meios de impedir que tais emoções sejam um obstáculo ao bem-estar. Descobrir os meios de diminuir o ódio e a inveja é sem dúvida parte da função da psicologia racional. Mas é um erro supor que diminuindo essas paixões, diminuiremos ao mesmo tempo a intensidade das paixões que a razão não condena.
No amor apaixonado, na afeição dos pais, na amizade, na benevolência, na devoção às ciências ou às artes, nada há que a razão deseje diminuir. O homem racional, quando sente essas emoções, ficará contente por as sentir e nada deve fazer para diminuir a sua intensidade, pois todas elas fazem parte da verdadeira vida, isto é, da vida cujo objectivo é a felicidade, a própria e a dos outros. Nada há de irracional nas paixões como paixões e muitas pessoas irracionais sentem sómente as paixões mais triviais. Ninguém deve recear que ao optar pela razão torne triste a vida. Ao contrário, pois a razão consiste, em geral, na harmonia interior; o homem que a realiza sente-se mais livre na contemplação do mundo e no emprego da sua energia para conseguir os seus propósitos exteriores, do que o homem que é continuamente embaraçado por conflitos íntimos. Nada é tão deprimente como estar fechado em si mesmo, nada é tão consolador como ter a sua atenção e a sua energia dirigidas para o mundo exterior.”
Bertrand Russell, in "A Conquista da Felicidade"

jacques brel - il nous faut regarder

domingo, 1 de Novembro de 2009

O Grande Educador






















Agostinho da Silva

O Grande Educador

É além de tudo essencial que a escola se não separe do mundo; não há escolas e oficinas; há um certo género de oficinas em que trabalham crianças nas tarefas que lhes são adequadas e lhes vão facilitando o desenvolvimento do corpo e do espírito; vão colaborando no que podem e no que sabem para que a vida melhore. Ninguém fugirá da escola e a olhará como um horror no dia em que a deixemos de conceber como o lugar a que se vai para receber uma lição, para a considerarmos como o ponto de condições óptimas para que uma criança efectivamente dê a sua ajuda a todos os que estão procurando libertar a condição humana do que nela há de primitivo; não se veja no aluno o ser inferior e não preparado a que se põe tutor e forte adubo; isso é o diálogo entre o jardineiro e o feijão; outra ideia havemos de fazer das possibilidades do homem e do arranjo da vida; que a criança se não deixe nunca de ver como elemento activo na máquina do mundo e de reconhecer que a comunidade está aproveitando o seu trabalho; de número na classe e de fixador de noções temos de a passar a cidadão.
O grande educador não pensa na escola pela escola, como o grande artista não aceita a arte pela arte; é incapaz de se encerrar na relativa estreiteza de uma vida de ensino; a escola, de tudo o que lhe oferecia o universo, é apenas o ponto a que dedicou maior interesse; mas é-lhe impossível furtar-se a mais larga actividade. De outro modo: trabalha com ideias gerais; não dirá que esta escola é o seu mundo, mas que esta escola é parte indispensável do seu mundo. E quererá também que toda a oficina passe a ser uma escola; que haja o trabalho proporcionado e alegre, amorosamente feito, porque se sabe necessário ao progresso, levado a cabo numa atitude de artista e de voluntário, disciplinado remador na jangada comum; que se não esmaguem as faculdades superiores do operário sob o peso e a monotonia de tarefas sem interesse e sem vida; que se faça a clara distinção entre o homem e a máquina; que, finalmente, se ajude o trabalhador a encontrar na sua ocupação, em todas as ideias que a cercam e a condicionam ou que ela própria provoca, o Bem Supremo da sua vida e da vida dos outros.

Agostinho da Silva, in 'Considerações'

Gilbert Bècaud - Quand il est mort le poete

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

Dar Significado ao Tempo






















Cesare Pavese

Dar Significado ao Tempo

Um dos prazeres humanos menos observados é o de preparar acontecimentos à distância, de organizar um grupo de acontecimentos que tenham uma construção, uma lógica, um começo e um fim. Este é quase sempre apercebido como um acme sentimental, uma alegre ou lisonjeira crise de conhecimento de si próprio. Isto aplica-se tanto à construção de uma resposta pronta como à de uma vida. E o que é isto, senão a premissa da arte de narrar? A arte narrativa apazigua precisamente esse gosto profundo.
O prazer de narrar e de escutar é o de ver os factos serem dispostos segundo aquele gráfico. A meio de uma narrativa volta-se às premissas e tem-se o prazer de encontrar razões, chaves, motivações causais. Que outra coisa fazemos quando pensamos no nosso próprio passado e nos comprazemos em reconhecer os sinais do presente ou do futuro? Esta construção dá, em substância, um significado ao tempo. E o narrar é, em suma, apenas um meio de o transformar em mito, de lhe fugir.

Cesare Pavese, in 'O Ofício de Viver'

Gilbert Becaud - Desiree (1985)