A minha foto
Caldas da Rainha - Passado Presente e Futuro

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Julgar Pelas Aparências…






















…«A beleza é uma forma de Génio... diria mesmo que é mais sublime do que o Génio por não precisar de qualquer explicação. É um dos grandes factos do mundo, como a luz do sol ou a Primavera, ou o reflexo nas escuras águas dessa concha de prata a que chamamos lua. É inquestionável. Tem um direito de soberania divino. Eleva os seus possuidores à categoria de príncipes. Está a sorrir? Ah, quando a tiver perdido com certeza que não há-de sorrir... às vezes as pessoas dizem que a Beleza é apenas superficial, e pode bem ser. Mas pelo menos não é tão superficial como o Pensamento. Para mim, a Beleza é a maravilha das maravilhas. Só as pessoas frívolas é que não julgam pelas aparências. O verdadeiro mistério do mundo é o visível e não o invisível...»

Oscar Wilde in 'O Retrato de Dorian Gray'

The Beach Boys - Don't Worry Baby

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Cortejo Ingénuo dos Nossos Sonhos...


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…«Não desenhamos uma imagem ilusória de nós próprios, mas inúmeras imagens, das quais muitas são apenas esboços, e que o espírito repele com embaraço, mesmo quando porventura haja colaborado, ele próprio, na sua formação. Qualquer livro, qualquer conversa podem fazê-las surgir; renovadas por cada paixão nova, mudam com os nossos mais recentes prazeres e os nossos últimos desgostos. São, contudo, bastante fortes para deixarem, em nós, lembranças secretas que crescem até formarem um dos elementos mais importantes da nossa vida: a consciência que temos de nós mesmos tão velada, tão oposta a toda a razão, que o próprio esforço do espírito para a captar a faz anular-se.

Nada de definido, nem que nos permita definir-nos; uma espécie de potência latente... como se houvesse apenas faltado a ocasião para cumprirmos no mundo real os gestos dos nossos sonhos, conservamos a impressão confusa, não de os ter realizado, mas de termos sido capazes de os realizar. Sentimos esta potência em nós como o atleta conhece a sua força sem pensar nela. Actores miseráveis que já não querem deixar os seus papéis gloriosos, somos, para nós mesmos, seres nos quais dorme, amalgamado, o cortejo ingénuo das possibilidades das nossas acções e dos nossos sonhos….»

André Malraux in 'A Tentação do Ocidente'

Beach Boys - California Dreaming

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Um ERO na Tropa e um Carnaval nos Pimpões

Em 1964 estava no Regimento de Infantaria 5 um Cabo Miliciano de nome João Ramos Franco


Sendo natural da cidade e estando de Sargento de Ronda à mesma no sexta-feira de Carnaval, não tinha muitas hipóteses de passar despercebido à hierarquia militar.

Vai daí, a única saída era o Bairro Além da Ponte, local que naquele tempo pouca malta da cidade frequentava e enfia-se com a Ronda no Baile dos Pimpões.
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Quando entrei, a malta não me reconheceu devido ao capacete militar, “torceram o nariz”, mas mal eu o tiro vem a festa: olha é João (o filho do Veterinário).
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Nesse tempo o Bar era logo à esquerda de quem entrava, eu assentei arraial logo aí, paguei uns copos aos Soldados que estavam de serviço comigo e disse:
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- Vão até à sala divertir-se, que fico aqui com estes amigos…
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- Nosso cabo Miliciano, as armas e o capacete? - perguntaram os Soldados.
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- Dêem cá isso, guarda-se atrás do balcão do Bar, estes amigos não se importam! -respondi eu, pedindo para me guardarem também a pistola.
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Dançaram-se meia-dúzia de músicas, beberam-se uns copos e ala para o quartel, que a última entrada era à 01h00…
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João Ramos Franco

C O M E N T Á R I O S no Blog do ERO
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Julinha disse...
Os dias vão passando e já lá vão 2 anos que conheci e comecei a contactar com o João R Franco. Sempre me pareceu uma boa pessoa...e vou confirmando isso mesmo, à medida que o tempo passa.
Naquela época, além de tentares festejar o Carnaval como te era possível, não esqueceste os soldados que te acompanhavam em serviço!
Quando comecei a ler, pensei....apanharam todos um castigo, esqueceram a hora de entrada. Enganei-me, o João, muito responsável, chegou a horas !E este Carnaval não vais aos Pimpões ? Que te divirtas....
Um abraço
Júlia
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Luís disse...
Os Pimpões eram realmente muito longe das Caldas, não eram? Lembro-me de lá ver pouca gente do E.R.O.
História engraçada e que mostra que a tropa nunca é para levar completamente a sério!!!
BOM CARNAVAL!
Luís
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Cachaça não é água

sábado, 13 de fevereiro de 2010

Carnaval com Vinicius de Moraes




















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“Felicidade”

Felicidade
É o meu carnaval
Quanto toda essa luz e cor
E o amor é natural

Felicidade
É o samba que eu fiz
E que ouço feliz a cantar
Esse povo infeliz

Abre os teus braços
Vem brincar nos braços meus
Hoje é só no faz-de-conta
No carnaval não existe adeus

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“A felicidade”

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes in Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"

samba do poeta - vai levando - tristeza (a felicidade)

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A Crónica de Jornal...

















Eça de Queirós

...«A crónica é como que a conversa íntima, indolente, desleixada, do jornal com os que o lêem: conta mil coisas, sem sistema, sem nexo, espalha-se livremente pela natureza, pela vida, pela literatura, pela cidade; fala das festas, dos bailes, dos teatros, dos enfeites, fala em tudo baixinho, como quando se faz um serão ao braseiro, ou como no Verão, no campo, quando o ar está triste. Ela sabe anedotas, segredos, histórias de amor, crimes terríveis; espreita, porque não lhe fica mal espreitar. Olha para tudo, umas vezes melancolicamente, como faz a Lua, outras vezes alegre e robustamente, como faz o Sol; a crónica tem uma doidice jovial, tem um estouvamento delicioso: confunde tudo, tristezas e facécias, enterros e actores ambulantes, um poema moderno e o pé da imperatriz da China; ela conta tudo o que pode interessar pelo espírito, pela beleza, pela mocidade; ela não tem opiniões, não sabe do resto do jornal; está nas suas colunas contando, rindo, pairando; não tem a voz grossa da política, nem a voz indolente do poeta, nem a voz doutoral do crítico; tem uma pequena voz serena, leve e clara, com que conta aos seus amigos tudo o que andou ouvindo, perguntando, esmiuçando.
A crónica é como estes rapazes que não têm morada sua e que vivem no quarto dos amigos, que entram com um cheiro de Primavera, alegres, folgazões, dançando, que nos abraçam, que nos empurram, que nos falam de tudo, que se apropriam do nosso papel, do nosso colarinho, da nossa navalha de barba, que nos maçam, que nos fatigam... e que, quando se vão embora, nos deixam cheios de saudades.»...

Eça de Queirós in 'Distrito de Évora'

Leonard Cohen "Democracy"

domingo, 7 de fevereiro de 2010

O Facto e o Direito...






















…«O direito é a justiça e a verdade. O característico do direito é conservar-se perpetuamente puro e belo. O facto, ainda o mais necessário, segundo as aparências, ainda o melhor aceite pelos contemporâneos, se só existe como facto, contendo pouco ou nada de direito, é infalivelmente destinado a tornar-se, com o andar dos tempos, disforme, imundo, talvez até monstruoso. Se alguém quiser verificar de um só jacto a que ponto de fealdade pode chegar o facto, visto à distância dos séculos, olhe para Maquiavel. Maquiavel não é um mau génio, nem um demónio, nem um escritor cobarde e miserável; é o facto puro. E não é só o facto italiano, é o facto europeu, é o facto do século XVI. Parece hediondo, e é-o, em presença da ideia moral do século XIX.
Esta luta do direito e do facto dura desde a origem das sociedades. Terminar o duelo, amalgamar a ideia pura com a realidade humana, fazer penetrar pacificamente o direito no facto e o facto no direito, eis o trabalho dos sábios.»….

Victor Hugo in 'Os Miseráveis'

Submarino Amarelo disse:
Conheço uns políticos a quem devias mandar este texto ... e daí talvez não, não sei se eles o compreenderiam

Sans la Nommer - Georges Moustaki

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

- Realidades do Sonho…
















…..”O sonho é a explosão dos súbditos na ausência do rei. Se o homem fosse um ser único, não sonharia. Mas cada um de nós é uma tribo em que somente um chefe tem os privilégios da vida iluminada. O chefe é a pessoa reconhecida pelos semelhantes, o «mim» legal da sociedade e da razão, obrigado a uma concordância fixa consigo mesmo. Só ele tem relações expressas com o mundo exterior e o único a reinar nas horas de vigília. Mas abaixo dele há um pequeno povo de cadetes expulsos, de insurrectos punidos, de hóspedes indesejáveis - exilados da zona da consciência, mas donos do subconsciente, encerrados no subterrãneo, mas prontos para a evasão, vencidos mas não mortos. Há a criança que foi renegada pelo jovem, o delinquente imobilizado pela moral e a lei, o louco que todos os dias estende armadilhas à razão raciocinadora, o poeta que a prática condenou ao silêncio, o bobo dominado pelas amarguras, o antepassado bárbaro que ainda se recorda do machado de pedra e dos festins de Tiestes.
O eu quotidiano e vulgar, o respeitável, o vigilante, o vitorioso, dominou essa tribo de larvas inimigas, de irmãos renegados e moribundos. E como a alma tem o seu subsolo, escuridão palúdica encimada pela varanda iluminada da consciência, mantém encerrados lá em baixo os intempestivos e preocupantes rivais. Às vezes, conseguem emergir, no meio-dia do eu dominante, mas por breves momentos - em particular, quando o homem está só consigo mesmo, sem testemunhas, e faz e diz coisas estranhas que evitaria diante dos companheiros. Em certas ocasiões, um deles consegue derrubar para sempre o chefe legítimo, e o homem, em virtude dessa revolução triunfante, torna-se assassino, louco ou génio - por vezes santo. “

Giovanni Papini in 'Relatório Sobre os Homens'

The Platters - Twilight Time

sábado, 30 de janeiro de 2010

UM ANGLIA EM ÓBIDOS (e comentários)

por Fernando Santa-Bárbara


Ao dar volta ao meu sotão (leia-se caixa dos pirolitos), lembrei-me de uma história passada aí há uns 50 anos, comigo, João Ramos Franco (João Traga Balas) e o Clóvis Remígio de Sousa.

Então foi assim (como agora se diz):

Estávamos, uma bela noite e devia ser numas férias, pois eu só cá vinha de férias, a pensar o que iríamos fazer!

Conversa para aqui, conversa para acolá, até que o João disse:

- " E se fôssemos dar uma volta no Anglia? " (O Anglia, era o carro do Pai - Dr. Ramos Franco, Médico-Veterinário em Caldas da Rainha).














Claro que ninguém tinha carta, mas dissémos logo que sim! Fomos direito à garagem, que servia também de consultório, buscar o Anglia.

Onde vamos, onde não vamos e lá fomos até Óbidos! Durante a viagem não houve qualquer problema. Chegados a Óbidos entrámos e fomos direitos ao Largo da Igreja de Santa Maria que, salvo erro, tinha umas escadas em vez de rampa.

Aqui, eu e Clóvis saímos do carro, para o João mostrar os seus dotes de condutor! Arranca para a frente e resolve fazer de seguida marcha atrás, esquecendo-se que estava um "senhor plátano" nas suas traseiras! E zás, traulitada no plátano e pára-choques metido para dentro!

Claro que nós dois partimo-nos a rir a ver a cena e a imaginar o momento em que o Dr. Ramos Franco visse o carro!

Acabaram-se as habilidades e regressámos às Caldas. Depois foi só meter o carro na garagem mas de maneira que, quando o Pai entrasse, não desse com os estragos. E assim lá entrou de marcha atrás,o que não era habitual, pois o Pai metia-o sempre de frente!

Para acabar a noite o João Traga Balas, ainda tentou endireitar o pára-choques com o cabo de uma vassoura a fazer de alavanca. Claro está que aquele se partiu e o bom do João bateu com os "costados" no chão!

Imaginem esta cena e o que nós nos rímos!

João, desculpa lá dar a conhecer esta História da Nossa Vida, mas nunca soube como foi o final, isto é, o que se passou a seguir?

Com um abraço

Fernando Santa-Bárbara
C O M E N T Á R I O S

João Ramos Franco respondeu:
A seguir a tu ires para casa, eu e o Clóvis (aluno da Escola Comercial), fomos até ao Marinto beber mais umas cervejas e jogar bilhar… sempre com ele a gozar comigo, cada vez que pegava no taco para dar uma carambola, ele dizia: vai mais uma volta do raly…
Esta e outras aventuras do João Traga-Balas, (João Ramos Franco) serão contadas, mas como não foram só vividas por mim, coloca-se o "conto eu, contas tu" e parece-me que dar a palavra aos amigos que também as viveram torna-as mais interessantes.
Obrigado, Fernando Santa-Bárbara!
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J J disse...
Este episódio, relatado pelo Fernando Santa-Bárbara, vem mostrar que diversas gerações de caldenses desviaram os carros familiares de forma a alargarem os seus horizontes e o seu campo de acção.
Uns mais discretamente do que outros...
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Julinha disse:
Se Óbidos "falasse" quantas estórias dos meninos do ERO teria para contar! Girissimos estes textos que nos contam estas aventuras.
Obrigada
Júlia R
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São Caixinha disse:
Divertidissimo...gostei muito!! ;))
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Isabel Esse disse...
Já repararam que nunca há raparigas convidadas para participar nestas aventuras? Porque será?
À parte isso a história é divertida, embora o João Ramos Franco não tenha respondido completamente à pergunta do escritor sobre o que se passou a seguir!IS
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Dalila Garcia disse:
Gostei do comentário da Isabel Esse, que até agora não teve resposta! :-)
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João Ramos Franco respondeu:
A Julinha disse que se Óbidos "falasse" quantas estórias dos meninos do ERO teria para contar! A resposta à Isabel Esse penso que está nas palavras da Julinha!?...
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M Rosário Pimentel disse:
O plátano no local errado e à hora errada e não teriamos mais uma estória divertida, por cujo final ficamos a aguardar com curiosidade...
MRosário Pimentel

Santa-Bárbara disse...
Para responder à Isabel Esse, que não tenho o prazer de conhecer, só lhe quero dizer, que se as raparigas não faziam parte destas aventuras, a culpa não era nossa!
Já pensaram, quais eram os Pais que nos finais dos anos 50, as deixavam sair à noite, a não ser para irem ao Casino? Pois é, nós bem gostávamos de as ter como companheiras...
Bem, o João já contou o resto da estória!
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João Ramos Franco disse...
Eu fugi a falar como o meu Pai enfrentou o assunto, mas se vos disser que ele não passou dos conselhos paternais, uma reprimenda verbal e no horário de chegada à noite a casa é a realidade. No meu blogue conto um pouco das minhas relações paternas, se forem ler vêm que tudo se passava como conto.
Quanto ao assunto da polícia, limitava-se a alertar os nossos pais e nada mais fazia… épocas!!!
Um abraço amigo
João Ramos Franco

Roberto Carlos - O Calhambeque

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

- A Essência das Coisas…





















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Édipo e a Esfinge
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…”Nunca me conformei com um conceito puramente científico da Existência, ou aritmético-geométrico, quantitativo-extensivo. A existência não cabe numa balança ou entre os ponteiros dum compasso. Pesar e medir é muito pouco; e esse pouco é ainda uma ilusão. O pesado é feito de imponderáveis, e a extensão de pontos inextensos, como a vida é feita de mortes.
A realidade não está nas aparências transitórias, reflexos palpitantes, simulacros luminosos, um aflorar de quimeras materiais. Nem é sólida, nem líquida, nem gasosa, nem electromagnética, palavras com o mesmo significado nulo. Foge a todos os cálculos e a todos os olhos de vidro, por mais longe que eles vejam, ou se trate dum núcleo atómico perdido no infinitamente pequeno, ou da nebulosa Andrómeda, a seiscentos mil anos de luz da minha aldeia!
A essência das coisas, essa verdade oculta na mentira, é de natureza poética e não científica. Aparece ao luar da inspiração e não à claridade fria da razão. Esta apenas descobre um simples jogo de forças repetido ou modificado lentamente, gestos insubstanciais, formas ocas, a casca de um fruto proibido.
Mas o miolo é do poeta. Só ele saboreia a vida até ao mais íntimo do seu gosto amargoso, e se embrenha nela até ao mais profundo das suas sensações e sentimentos. É o ser interior a tudo. Para ele, a realidade não é um conceito abstracto, ideia pura, imagem linear; é uma concepção essencial, imagem hipostasiada, possuída em alma e corpo, nupcialmente, dramaticamente, à São Paulo ou Shakespeare.”

Teixeira de Pascoaes in "O Homem Universal"

Jean Gabin-Maintenant je sais

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

- A Realização Humana está Fora da Sabedoria…





















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Ramalho Ortigão
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- A Realização Humana está Fora da Sabedoria…

…“O homem mais perfeitamente educado por um mestre foi Stuart Mill. Aos vinte anos de idade ele tinha aprendido com James Mill, seu pai, tudo quanto a ciência pode ensinar a um sábio e a um filósofo. E todavia Stuart Mill conta-nos na sua autobiografia que, ao perguntar um dia a si mesmo se seria feliz, uma vez realizadas nas instituições e nas ideias todas as reformas que ele projectava criar, a sua consciência lhe respondera: não. «Senti-me então desfalecer, - diz ele; todas as fundações sobre que se tinha arquitectado a minha vida se desmoronaram de repente.» Mais tarde ele sentiu a dor, sentiu depois o amor, o amor apaixonado, absorvente, enorme, dominando todo o seu ser, submetendo a força dissolvente da análise; e foi só então que ele se sentiu homem, revivendo para a natureza, forte da grande força que a natureza lhe comunicava, equilibrado para sempre no seu destino, cingido ao coração palpitante de uma mulher que ele amou - ele o sábio, o filósofo, o reformador frio e implacável - com o amor ilimitado, entusiástico, cavalheiresco, que as velhas lendas líricas atribuem aos grandes amantes célebres.”

Ramalho Ortigão in 'As Farpas (1883)'

Le temps de vivre - Georges Moustaki

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

A Função do Escritor...


















...“Que o mundo «está infestado com a escória do género humano» é perfeitamente verdade. A natureza humana é imperfeita. Mas pensar que a tarefa da literatura é separar o trigo do joio é rejeitar a própria literatura. A literatura artística é assim chamada porque descreve a vida como realmente é. O seu objectivo é a verdade - incondicional e honestamente. O escritor não é um confeiteiro, um negociante de cosméticos, alguém que entretém; é um homem constrangido pela realização do seu dever e a sua consciência. Para um químico, nada na terra é puro. Um escritor tem de ser tão objectivo como um químico.
Parece-me que o escritor não deveria tentar resolver questões como a existência de Deus, pessimismo, etc. A sua função é descrever aqueles que falam, ou pensam, acerca de Deus e do pessimismo, como e em que circunstâncias. O artista não deveria ser juiz dos seus personagens e das suas conversas, mas apenas um observador imparcial.
Têm razão em exigir que um artista deva ter uma atitude inteligente em relação ao seu trabalho, mas confundem duas coisas: resolver um problema e enunciar correctamente um problema. Para o artista, só a segunda cláusula é obrigatória.
Acusam-me de ser objectivo, chamando-lhe indiferença em relação ao bem e ao mal, falta de ideias e ideais, etc. Querem que, ao descrever ladrões de cavalos, diga: «Roubar cavalos é mau». Mas isso é sabido há séculos sem que eu tenha de o dizer. Deixem que um júri os julgue; a minha tarefa é simplesmente mostrar que género de pessoas são. Escrevo: estão a lidar com ladrões de cavalos e, assim, deixem-me dizer-lhes que não são mendigos, mas gente bem alimentada que segue um culto especial e que roubar cavalos não é simplesmente roubo, mas uma paixão. Claro que seria agradável combinar arte com sermões, mas, quanto a mim, é impossível por questões técnicas. Para descrever ladrões de cavalos em setecentas linhas, tenho de falar, pensar e sentir à maneira deles. De outro modo, a história não será tão compacta como os contos deveriam ser. Quando escrevo, conto inteiramente com o leitor para que este acrescente os elementos subjectivos que faltam na história.”

Anton Tchekhov in "Cartas"

Alberto Cortez "Puedo Escribir los Versos"

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

- Civilização Construída ao Acaso…












- Grandes pensadores da Humanidade. Da esquerda para direita: Galileu, Newton, Mendel, Darwin, Pasteur, Lavoisier, Fleming, Einstein, Thomson e Rutheford.
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- Civilização Construída ao Acaso…
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“A civilização moderna encontra-se em má posição porque não nos convém. Foi construída sem conhecimento da nossa verdadeira natureza. Deve-se ao capricho das descobertas científicas, do apetite dos homens, das suas ilusões, das suas teorias e dos seus desejos. Apesar de ter sido edificada por nós, não foi feita à nossa medida.
Na verdade, é evidente que a ciência não seguiu nenhum plano. Desenvolveu-se ao acaso, com o nascimento de alguns homens de génio, a forma do seu espírito e o caminho que tomou a sua curiosidade. Não se inspirou de modo nenhum no desejo de melhorar o estado dos seres humanos. As descobertas produziram-se ao sabor da intuição dos cientistas e das circunstâncias mais ou menos fortuitas das suas carreiras.
Se Galileu, Newton ou Lavoisier tivessem aplicado os poderes do seu espírito ao estudo do corpo e da consciência, talvez o nosso mundo fosse diferente do que é hoje. Os cientistas ignoram para onde vão. São guiados pelo acaso, por raciocínios subtis, por uma espécie de clarividência. Cada um deles é um mundo à parte, governado pelas suas próprias leis. De tempos a tempos, certas coisas, obscuras para os outros, tornam-se claras para eles. Em geral, as descobertas são feitas sem nenhuma revisão das consequências. Mas a forma da nossa civilização resultou dessas consequências.”

Alexis Carrel in 'O Homem esse Desconhecido'

Yesterday - The Beatles

sábado, 9 de janeiro de 2010

PALCOS E PERSONAGENS (João Ramos Franco)

por João Ramos Franco

Café Central – a porta aberta (marcação de entrada em cena)•.






Quem tenta fazer desfilar personagens e factos que lhe povoam a mente, precisa de palcos para a encenação das histórias a contar .
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Por isso no post “UMA VIAGEM” apareceu a fotografia da Praça, e não uma outra da nossa Cidade, os escritores e encenadores necessitam de palcos amplos e livres para que neles possam desfilar as personagens…


Personagens como por exemplo o avô Garrido, a quem eu ouvi declamar no Casino o monólogo “ Os Malefícios do Tabaco”, de Anton Tchekhov, que pode abrir o desfile… são tantos e tantas as artes e ofícios a apresentar, que a cidade das Caldas me parece pequena…















Jacques Brel - La valse à mille temps – 1963

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

A Vida não Está por Ordem Alfabética
















Psicologia dos Contactos

A Vida não Está por Ordem Alfabética

….”Surge... ora aqui, ora ali, como muito bem entende, são miga¬lhas, o problema depois é juntá-las, é esse montinho de areia, e este grão que grão sustém? Por vezes, aquele que está mesmo no cimo e parece sustentado por todo o montinho, é precisamente esse que mantém unidos todos os outros, porque esse montinho não obedece às leis da física, retira o grão que aparentemente não sustentava nada e esboroa-se tudo, a areia desliza, espalma-se e resta-te apenas traçar uns rabiscos com o dedo, contradanças, caminhos que não levam a lado nenhum, e continuas à nora, insistes no vaivém, que é feito daquele abençoado grão que mantinha tudo ligado... até que um dia o dedo resolve parar, farto de tanta garatuja, deixaste na areia um traçado estranho, um desenho sem jeito nem lógica, e começas a desconfiar que o sentido de tudo aquilo eram as garatujas.”

António Tabucchi in 'Tristano Morre'

Andy Williams - Impossible Dream

sexta-feira, 1 de janeiro de 2010

Todo o Presente Espera pelo Passado…















Café Central - Caldas da Rainha

Todo o Presente Espera pelo Passado…

….“Há vária gente que não gosta de evocar o passado. Uns por energia, disciplina prática e arremesso. Outros por ideologia progressista, visto que todo o passado é reaccionário. Outros por superficialidade ou secura de pau. Outros por falta de tempo, que todo ele é preciso para acudir ao presente e o que sobra, ao futuro. Como eu tenho pena deles todos. Porque o passado é a ternura e a legenda, o absoluto e a música, a irrealidade sem nada a acotovelar-nos. E um aceno doce de melancolia a fazer-nos sinais por sobre tudo. Tanta hora tenho gasto na simples evocação. Todo o presente espera pelo passado para nos comover. Há a filtragem do tempo para purificar esse presente até à fluidez impossível, à sublimação do encantamento, à incorruptível verdade que nele se oculta e é a sua única razão de ser. O presente é cheio de urgências mas ele que espere. Ha tanto que ser feliz na impossibilidade de ser feliz. Sobretudo quando ao futuro já se lhe toca com a mão. Há tanto que ter vida ainda, quando já se a não tem...”
Vergílio Ferreira in 'Conta-Corrente 5'

Jose Carreras En Aranjuez Con Tu Amor