«É sempre igual a luta do que é antigo, do que já existe e procura subsistir, contra o desenvolvimento, a formação e a transformação. Toda a ordem acaba por dar origem à pedanteria e para nos libertarmos dela destrói-se a ordem. Depois, demora sempre algum tempo até que se ganhe consciência de que é preciso voltar a estabelecer uma ordem. O clássico face ao romântico, a obrigação corporativa face à liberdade profissional, o latifúndio face à pulverização da propriedade fundiária: o conflito é sempre o mesmo e há-de sempre dar origem a um novo conflito. Deste modo, a maior prova de entendimento por parte do governante seria regular essa luta de tal maneira que, sem prejuízo de cada uma das partes, conseguisse manter-se equidistante. É, no entanto, uma possibilidade que não foi dada aos homens, e Deus não parecer querer que assim aconteça.»
Johann Wolfgang von Goethe in 'Máximas e Reflexões'
«Este livro, “VIAGEM À RODA DA PARVÓNIA”, fazia parte da biblioteca paterna. O recordá-lo, aqui, leva-me a um passado, em que me apercebi mais do estado social do País anterior à Republica e de como fui formando um certo modo estar e pensar. A capa do livro é igual à da edição que eu li. Os personagens 1º SUJEITO, 2º SUJEITO, GAROTO, 1º BANQUEIRO, 2º BANQUEIRO, 1º JORNALISTA, 2º JORNALISTA, 1º BACHAREL, 2º BACHAREL, 1º GATUNO, 2º GATUNO, vão passando por cena e criando o ambiente para o aparecimento do Judeu. Tudo o que transcrevo é retirado de diversos sites da internet, que estão devidamente identificados, pois só com esta pesquisa vos poderia dar a imagem da obra que li e a época a que se refere. João Ramos Franco
...Guilherme de Azevedo de parceria com Guerra Junqueiro e sob o pseudónimo colectivo de «comendador» Gil Vaz, sobe à cena no Teatro do Ginásio em 17 de Janeiro 1879 e é depois publicada a «revista do ano», ou, como lhe chama, o «relatório em 4 actos, Viagem à Roda da Parvónia. Ramalho Ortigão considera esta peça uma «fiel pintura dos costumes constitucionais»... http://www.vidaslusofonas.pt/Gazevedo.htm
VIAGEM À RODA DA PARVÓNIA
Guerra Junqueiro Guilherme de Azevedo (Comendador Gil Vaz)
….Assim teria de ser e foi; aquelas notas eram nem mais nem menos que para a Viagem à roda da Parvónia que estavam escrevendo para o Ginásio. A crítica motejante espalhava-se a fluxo pelos quatro actos com carapuças bem talhadas para as cabeças das instituições, principiando pelas da autoridade e acabando nas dos mais graves conselheiros.
….A tempestade não se fez esperar; rugiu, trovejou, principiando pelos pés, que não de vento mas de muitos bons burgueses bem calçados, subiu às cadeiras, que voaram pela sala estilhaçadas e, se os apitos não estridularam a reclamar a polícia, é porque estava presente na pessoa do Sr. conselheiro Arrobas, Governador Civil, que desabou em cheio, com toda a massa da sua rotundidade e peso do seu nome, sobre o relatório de Gil Vaz, proibindo a representação por imoral e má figura!
…Era de esperar; atacava-se a moralidade da política por meio do relatório ao vivo do comendador Gil Vaz. Relatórios só os das finanças, que davam a ilusória esperança da extinção do deficit sempre progressivo, não perturbando a beatitude das consciências. Fazia lembrar aquele ferreiro que, lendo no Rei do Mundo uma descrição do velho Império Romano decadente, se indignou das imoralidades que lá campeavam e arremessou para longe o livro… http://www.esferadocaos.pt/docs/EDC_PDF_PARVONIA_06009.pdf ()
...JUDEU (Aparece montado num burro, traja varino grosseiro, galochas de borracha, na cabeça um carapuço de lã. com borla; vem coberto de pó dos séculos – ou, não podendo ser de pó dos séculos, de qualquer outro. A tiracolo um frasco de genebra e um binóculo. Apeia-se ficando com o burro preso pela rédea.) Tenho corrido Seca e Meca, faltava-me correr os Olivais de Santarém! Condenado pelo destino a caminhar constantemente, andarilho eterno, um verdadeiro almocreve dos tempos, depois de ter visto as pirâmides do Egipto, o Pólo Norte, Roma, Cartago, Babilónia; depois de ter assistido à queda dos impérios, ao dilúvio, à revolução de 1820, (suspende-se) perdão! (Olhando para a plateia.) Aquele senhor de óculos azuis que ali está no fundo da plateia, muito espantado a olhar para mim, quer talvez saber quem eu sou, de onde venho e para onde vou? Eu lhe digo. Quem sou? Sou o Judeu Errante Júnior. Tenho de idade 7 000 anos e três dias, (mostra um papel) aqui está a certidão. – Nascido na freguesia do Éden, filho do Judeu Errante Sénior, solteiro, isento do recrutamento, bacharel em quatro faculdades e vacinado. – Ando há sete mil anos à busca da Parvónia e só hoje a pude encontrar. Tenho-me farto de perguntar a toda a gente aonde fica este país, e diz-me um: olhe, é ali abaixo, à direita, com um ramo de louro à porta; – caminho, caminho, caminho e vou dar à ilha de Chipre! Torno a perguntar, e respondem-me: olhe, vá o senhor andando por aí abaixo, e em sentindo no nariz um cheiro pouco parlamentar, (3) pode ter a certeza de que nesse instante pousou a planta fatigada na cidade de Ulisses, outrora Ulissipo e em nossos dias Parvónia. Finalmente, cheguei, não há dúvida. (Levando o lenço ao nariz.) Fique entretanto entendido, ó Lusos, que se cheguei devo-o unicamente a este raro quadrúpede originário de Sintra, que um príncipe excêntrico daqui levou há dois anos, e que há poucos dias mandou vender em leilão. (4) Foi ele que, movido pela nostalgia da pátria, me conduziu à terra que lhe foi berço e aonde recebeu a sua primeira educação. (Prende o burro.) Descansa, dedicado companheiro, descansa que bem o precisas!... …CICERONE (Chegando apressado: grande toilette de belfurinheiro em exercício.) Ora onde eu o venho encontrar! Maganão, há tanto tempo que o não via! JUDEU (Absorto.) Nem eu, meu caro senhor. Nunca o vi mais gordo! O que deseja?... CICERONE (Falando apressadamente, e tirando vários objectos das algibeiras e da mala que traz a tiracolo.) Então a amigo já tem hospedaria? Precisa escovas para o cabelo? Quer a pasta da Justiça? Quer que lhe leve as malas ou quer a carta do Conselho? Olhe, ali na Rua do Arsenal há cigarrilhas espanholas magníficas, mas se quer ó hábito de S. Tiago também se lhe arranja: isto aqui é pedir por boca. Não tem senão escolher: ou vai para a Rua dos Vinagres ou então, se lhe faz mais arranjo, pode meter-se no Tribunal de Contas. No Conselho de Estado não há agora vaga. Prefere ser guarda-nocturno? visconde não é mau, mas guarda a cavalo é melhor. Escolha; deseja empenhar a consciência, deseja empenhar o relógio? Pretende ser deputado? Pelo governo custa-lhe 300 libras, pela oposição 200. Quer casar, quer ser da irmandade dos Terceiros? quer elogios nos jornais? Ou antes pelo contrário não quer nada disto e deseja apenas ser um brasileiro rico e bem conceituado na sua freguesia? Porque não me fica com este décimo da lotaria de Espanha e com esta comenda de Isabel a Católica? São ambas do Fonseca! Vamos, decida-se: o senhor precisa por força de alguma coisa. Aqui tem uma pomada para fazer cair o cabelo e os ministérios; aqui tem cartas de conselho, tftu1ºs de dívida infundada, baralhos de cartas, fluidos transmutativos, microscópios para ver pulgas e grandes homens; títulos para deitar nódoas e sabonetes para as tirar; enfim, aqui tem nesta drogaria diabólica tudo quanto é preciso para levar um homem desde a imortalidade até à polícia correccional! JUDEU (Entusiasmado.) Heureca! achei o meu homem! O Cicerone que eu procurava há tanto tempo! (Dando-lhe o braço.) Vamos dar um passeio pela Parvónia. CICERONE A primeira coisa que há a fazer, para obter tudo o que quiser, eu lha digo já, – entretanto será sempre bom disfarçar o nome e a cara. Agora, para abrir caminho e conseguir tudo, absolutamente tudo, deve propor-se deputado. As eleições estão à porta. JUDEU Deputado! Mas se eu não souber ler nem escrever? CICERONE Melhor! pode já contar com a eleição; não há tempo a perder, vamos à igreja. JUDEU (Detendo-se.) Mas o demónio é o burro! aonde é que havemos de guardar este jumento? CICERONE Não tem dúvida. (Chamando um garoto.) Olé! vai-me meter este burro no Tribunal de Contas. (7) (Saem de braço dado.)… ….Nota 1 A propósito: O coração do povo não é incorruptível, mas encerra um fundo de bondade e de justiça que o faz abraçar todas as ideias generosas. A janeirinha trouxe eleições sob o Pôncio Pilatos do progresso, actualmente chamado duque de Ávila. Propõe-se pelo meu circulo Barros e Cunha, barão de Alcantarilho e José Figueiredo, todos bem esperançados; mas José Figueiredo vence, sem alcançar maioria absoluta. Os dois retiram, e alguns se lembram de me propor, contra José Figueiredo. Eu conhecia este bom rapaz, e sabia o natural empenho do pai em o levar ao parlamento: sabia da política apenas o necessário para a detestar. Por isso resisti a todas as instâncias, até que enfim, ponderando o escândalo que seria não chegar a querer de graça, sem compromisso nem sacrifício algum, o que tantos, tantíssimos desejam a troco de todos os compromissos e sacrifícios, acabei por dizer, uma quinta-feira à noite: Pois se me elegerem, aceito. No domingo imediato, contra as instruções de Pôncio Pilatos, e apesar dos trabalhos acumulados da numerosa e prestigiosa família Mascarenhas, saio eleito por cem votos de maioria. Assombro geral! Os próprios vencedores custava-lhes reconhecer a sua obra; parecia-lhes que uma potência invisível os tinha auxiliado. E tinha: era a grande potência do coração do povo. Não me surpreendeu; previa-o. – Deus fez o mundo em seis dias, e nós não havemos de ganhar uma eleição em três? – dizia eu aos que arrepelando-se pela minha irresolução viam correr um tempo precioso e irreparável. Nós nem sabíamos que tu podias ser eleito, disse o povo; mas agora que nos dizem que podes ser, tu não tens feito mal, tu recomendas o outro, tu és bom rapaz; pobres somos nós todos, vamos-te eleger de graça. E os pobres festejaram a sua própria vitória, quotizando-se para beber à saúde do deputado. Assim caí das nuvens no parlamento, por uma eleição singular (que podia ser a coisa mais ordinária deste mundo). Transporto-me a Lisboa e quebra por esse tempo um negociante meu patrício, envolvendo na quebra fortuna e crédito dum pobre amigo seu muito dedicado, que só com certo favor do Banco de Portugal se podia salvar. Já várias vezes o quebrado tinha solicitado esse favor, debalde; e pede-me pelo amor de Deus que o acompanhe a casa dum director do Banco. Fomos. Apenas o director o avista, rompe em justas queixas pela insistência com que apesar das suas advertências era importunado com negócios do Banco em sua própria casa, onde tinha direito e necessidade de repousar. O quebrado, não sabendo que dizer, apresenta-me por nome e título... Eu nunca fiz tão alta ideia da dignidade de deputado, nem uma ideia tão aproximada da transfiguração no Tabor. O director tira o semblante e o boné: prova-me que sabia de cor as Flores do Campo, desde o primeiro até ao último verso; convence-me de que eu nada pedia do Banco, antes lhe proporcionava a ele ocasião de pôr em prática o espírito e a letra daquela instituição essencialmente patriótica e humana; que se alguém devia favores, era o Banco que mos devia a mim... Nesta certeza, saí nadando em delícias por ter ao mesmo tempo salvado uma família e penhorado o Banco de Portugal. Esta história parece-me um justo comentário à frase que Gil Vaz me encarrega de anotar. JOÃO DE DEUS http://alfarrabio.di.uminho.pt/vercial/junquei2.htm
«Não: plantai batatas, ó geração de vapor e de pó de pedra, macadamizai estradas, fazeis caminhos de ferro, construí passarolas de Ícaro, para andar a qual mais depressa, estas horas contadas de uma vida toda material, maçuda e grossa como tendes feito esta que Deus nos deu tão diferente do que a que hoje vivemos. Andai, ganha-pães, andai; reduzi tudo a cifras, todas as considerações deste mundo a equações de interesse corporal, comprai, vendei, agiotai. No fim de tudo isto, o que lucrou a espécie humana? Que há mais umas poucas dúzias de homens ricos. E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar a miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? - Que lho digam no Parlamento inglês, onde, depois de tantas comissões de inquérito, já devia andar orçado o número de almas que é preciso vender ao diabo, número de corpos que se tem de entregar antes do tempo ao cemitério para fazer um tecelão rico e fidalgo como Sir Roberto Peel, um mineiro, um banqueiro, um granjeeiro, seja o que for: cada homem rico, abastado, custa centos de infelizes, de miseráveis.»
1. Todos os dias os ministros dizem ao povo Como é difícil governar. Sem os ministros O trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima. Nem um pedaço de carvão sairia das minas Se o chanceler não fosse tão inteligente. Sem o ministro da Propaganda Mais nenhuma mulher poderia ficar grávida. Sem o ministro da Guerra Nunca mais haveria guerra. E atrever-se ia a nascer o sol Sem a autorização do Führer? Não é nada provável e se o fosse Ele nasceria por certo fora do lugar.
2. E também difícil, ao que nos é dito, Dirigir uma fábrica. Sem o patrão As paredes cairiam e as máquinas encher-se-iam de ferrugem. Se algures fizessem um arado Ele nunca chegaria ao campo sem As palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem, De outro modo, poderia falar-lhes na existência de arados? E que Seria da propriedade rural sem o proprietário rural? Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio onde já havia batatas.
3. Se governar fosse fácil Não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos como o do Führer. Se o operário soubesse usar a sua máquina E se o camponês soubesse distinguir um campo de uma forma para tortas Não haveria necessidade de patrões nem de proprietários. E só porque toda a gente é tão estúpida Que há necessidade de alguns tão inteligentes.•
4. Ou será que Governar só é assim tão difícil porque a exploração e a mentira São coisas que custam a aprender?
"O último banquete dos girondinos" - Felix Philippoteaux.
«Há que instruir o povo. Afigura-se-nos, porém, que é presunção demasiada, em nosso parecer, pelo menos, pensar que o povo sem mais nem para quê vai ouvir-nos de boca aberta. Porque o povo não é um rebanho de carneiros! Mais ainda: estamos convencidos de que compreende, ou pelo menos pressente, que nós, os senhores, tão-pouco sabemos nada, ainda que nos apresentemos como mestres, e que precisamos que alguém nos ensine primeiro; eis por que efectivamente não respeita a nossa ciência, ou pelo menos não a ama. Quem tiver tido algum comércio com o povo poderá verificar por si próprio esta impressão. Para que o povo nos ouça, efectivamente, de boca aberta, há que começar por merecê-lo, isto é, por ganhar a sua confiança, o seu respeito e essa nossa ideia de que basta usarmos da palavra para ele nos ouvir boquiaberto... não é a mais indicada para granjearmos a sua confiança e muito menos a sua estima. Mas o povo compreende-o. Não há nada que o homem entenda melhor que o tom com que nos dirigimos a ele, o sentimento que ele nos inspira. A ingénua crença na nossa incomensurável sabedoria relativamente ao povo antolha-se-lhe grotesca e em muitas ocasiões considera-a mesmo ofensiva. E se, de repente, o povo também se convencesse (se o não sabe, suspeita-o) de que podia ensinar-nos alguma coisa, e nós, sem dar-lhe ouvidos, nem presumir semelhante coisa, rindo-nos das suas ideias e acolhendo com arrogância as suas instruções! E dizermos que o povo podia ensinar-nos muita coisa, quanto mais não fosse a maneira de o instruirmos.»
«Não nos deve surpreender que, a maior parte das vezes, os imbecis triunfem mais no mundo do que os grandes talentos. Enquanto estes têm por vezes de lutar contra si próprios e, como se isso não bastasse, contra todos os medíocres que detestam toda e qualquer forma de superioridade, o imbecil, onde quer que vá, encontra-se entre os seus pares, entre companheiros e irmãos e é, por espírito de corpo instintivo, ajudado e protegido. O estúpido só profere pensamentos vulgares de forma comum, pelo que é imediatamente entendido e aprovado por todos, ao passo que o génio tem o vício terível de se contrapor às opiniões dominantes e querer subverter, juntamente com o pensamento, a vida da maioria dos outros. Isto explica por que as obras escritas e realizadas pelos imbecis são tão abundante e solicitamente louvadas - os juízes são, quase na totalidade, do mesmo nível e dos mesmos gostos, pelo que aprovam com entusiasmo as ideias e paixões medíocres, expressas por alguém um pouco menos medíocre do que eles. Este favor quase universal que acolhe os frutos da imbecilidade instruída e temerária aumenta a sua já copiosa felicidade. A obra do grande, ao invés, só pode ser entendida e admirada pelos seus pares, que são, em todas as gerações, muito poucos, e apenas com o tempo esses poucos conseguem impô-la à apreciação idiota e ovina da maioria. A maior vitória dos néscios consiste em obrigar, com certa frequência, os sábios a actuar e falar deles, quer para levar uma vida mais calma, quer para a salvar nos dias da epidemia aguda da loucura universal.»
«Qualquer um pode ser bom no campo. Lá não há tentações. É por isso que as pessoas que não vivem na cidade são tão terrivelmente bárbaras. A civilização não é de modo nenhum uma coisa fácil de atingir. Há duas maneiras de um homem a alcançar. Uma é pela cultura e outra é pela corrupção. As pessoas do campo não têm qualquer oportunidade de praticar nenhuma delas e, por conseguinte, estagnam.»
«A verdade contradiz a nossa natureza; o erro não. A razão disso é simples: a verdade impõe-nos o dever de reconhecer a nossa limitação, ao passo que o erro nos lisonjeia dando-nos a entender que, de uma forma ou de outra, não estamos sujeitos a limites. Qualquer pessoa gosta do falso, do absurdo, pois ele opera pela insinuação. Mas não do verdadeiro, do que é sólido, já que este opera pela exclusão. Para os fracos é quase sempre mais cómodo o falso, o erro. O que é verdadeiro estimula. Nada se pode desenvolver com base no erro, porque o erro limita-se a envolver-nos no erro. É muito mais fácil verificar o erro do que encontrar a verdade. O erro está à superfície, e com isso podemos nós bem. A verdade repousa nas profundidades, e não é qualquer um que se pode lançar à investigação nessas regiões.»
Johann Wolfgang von Goethe in 'Máximas e Reflexões'
«A cultura é uma das formas de libertação do homem. Por isso, perante a política, a cultura deve sempre ter a possibilidade de funcionar como antipoder. E se é evidente que o Estado deve à cultura o apoio que deve à identidade de um povo, esse apoio deve ser equacionado de forma a defender a autonomia e a liberdade da cultura para que nunca a acção do Estado se transforme em dirigismo.»
Sophia de Mello Breyner Andresen in 'Assembleia Constituinte, Agosto de 1975'
'D. Quixote contra os moinhos de vento'- gravura - G. A. Harker
«Como pode ser-se idiota e, ao mesmo tempo, feliz, pergunta-me um leitor? Pois explico já. A idiotia e a felicidade são ideias muito vagas, difíceis de cingir em conceitos de circulação universal, digamos. Mas, pensando melhor, acho que certa idiotia é susceptível de conferir ao idiota ser proprietário (ou seu prisioneiro) uma espécie de segurança em si próprio que o levará, em determinados momentos, julgo eu, a uma beatitude muito próxima do que se pode chamar estado de felicidade. Assim sendo, não vejo incompatibilidade entre o ser-se idiota e o ser-se feliz. Bem sei que há várias maneiras de se chegar a idiota. Uma delas foi experimentada comigo. Uma parente minha queria por força reconverter-me ao Catolicismo e, deste modo, passava a vida a dizer-me: «Alexandre, não penses. Se começas a pensar estragas tudo. A crença em Deus, se, em vez de pensares, reaprenderes a rezar, vem por si. É uma graça, sabias? Vá, reza comigo.» E ensinava-me orações que eu, muitas vezes de mãos postas, repetia aplicadamente. Acabei por não me casar com ela. Não quero dizer, com isto, que não acredite na chamada (creio eu) revelação. Se revelação não existisse, como poderia um poeta do tomo de Paul Claudel entrar um dia em Notre - Dame e sentir-se, naquele preciso momento, convertido irresistivelmente ao Cristo e à irradiação da sua verdade e da sua beleza? E não pode afirmar-se que o grande poeta fosse um idiota.
Agora a minha parente era-o, de certeza, e queria fazer de mim outro idiota. Não por desejar reconverter-me, mas por aconselhar-me, como meio, o de eu não pensar, o de eu principalmente não pensar. Se tivesse casado com ela (que não era filha da minha lavadeira) talvez tivesse sido feliz - não se sabe - idiota e feliz. Assim, fiquei longos anos idiota e infeliz, infeliz por ser idiota e saber que o era e que não podia deixar de o ser. Ora, um idiota que é infeliz por saber que é idiota já pode estar a caminho de deixar de o ser. É uma possibilidade. É a tal luz no fundo do túnel, como se disse tantas vezes a propósito da situação económica deste idiota de país.
Não se espante, por conseguinte, o leitor de que um qualquer idiota possa, ao mesmo tempo, ser feliz. É, até, assaz corrente. Há idiotas que se consideram inteligentíssimos, o que é uma forma muito comum de idiotia, e extraem dessa certeza alguma felicidade, aquela maneira de felicidade que consiste em uma pessoa se julgar muito superior às que a rodeiam. O leitor gostaria de ser ministro ou secretário de Estado? Pois fique sabendo que há quem goste, embora - será justo dizê-lo - também há quem o seja a contra-gosto, por dever partidário ou patriótico.
Os idiotas, de modo geral, não fazem um mal por aí além, mas, se detêm poder e chegam a ser felizes em demasia podem tornar-se perigosos. É que um idiota, ainda por cima feliz, ainda por cima como poder, é, quase sempre, um perigo. Oremos. Oremos para que o idiota só muito raramente se sinta feliz. Também, coitado, há-de ter, volta e meia, que sentir-se qualquer coisa.»
Alexandre O'Neill in "Uma Coisa em Forma de Assim"
«O aperfeiçoamento da Humanidade depende do aperfeiçoamento de cada um dos indivíduos que a formam. Enquanto as partes não forem boas, o todo não pode ser bom. Os homens, na sua maioria, são ainda maus e é, por isso, que a sociedade enferma de tantos males. Não foi a sociedade que fez os homens; foram os homens que fizeram a sociedade. Quando os homens se tornarem bons, a sociedade tornar-se-á boa, sejam quais forem as bases políticas e económicas em que ela assente. Dizia um bispo francês que preferia um bom muçulmano a um mau cristão. Assim deve ser. As instituições aparecem com as virtudes ou com os defeitos dos homens que as representam.»
Teixeira de Pascoaes in "A Saudade e o Saudosismo"
Uma obra não resolve nada, assim como o trabalho de uma geração inteira não resolve nada. Os filhos - o amanhã - recomeçam sempre e ignoram alegremente os pais, o já feito. É mais aceitável o ódio, a revolta contra o passado do que esta beata ignorância. O que havia de bom nas épocas antigas era a sua constituição graças à qual se olhava sempre para o passado. Este o segredo da sua inesgotável plenitude. Porque a riqueza de uma obra - de uma geração - é sempre determinada pela quantidade de passado que contém.
Todo o fenómeno tem, relativamente ao nosso entendimento e à sua potência de descriminar, uma realidade - quero dizer certos caracteres, ou (para me exprimir por uma imagem, como recomenda Buffon) certos contornos que o limitam, o definem, lhe dão feição própria no esparso e universal conjunto, e constituem o seu exacto, real e único modo de ser. Somente o erro, a ignorância, os preconceitos, a tradição, a rotina e sobretudo a ilusão, formam em torno de cada fenómeno uma névoa que esbate e deforma os seus contornos, e impede que a visão intelectual o divida no seu exacto, real, e único modo de ser. É justamente o que sucede aos monumentos de Londres mergulhados no nevoeiro... (...) Nas manhãs de nevoeiro numa rua de Londres, há dificuldade em distinguir se a sombra densa que ao longe se empasta é a estátua de um herói ou o fragmento de um tapume. Uma pardacenta ilusão submerge toda a cidade - e com espanto se encontra numa taverna, quem julgara penetrar num templo. Ora para a maioria dos espíritos uma névoa igual flutua sobre as realidades da Vida e do Mundo. Daí vem que quase todos os seus passos são transvios, quase todos os seus juízos são enganos; e estes constantemente estão trocando o templo e a taverna. Raras são as visões intelectuais bastante agudas e poderosas para romper através da neblina e surpreender as linhas exactas, o verdadeiro contorno da realidade.
Eça de Queirós in 'A Correspondência de Fradique Mendes'
«A arte baseia-se na vida, porém não como matéria mas como forma. Sendo a arte um produto directo do pensamento, é do pensamento que se serve como matéria; a forma vai buscá-la à vida. A obra de arte é um pensamento tornado vida: um desejo realizado de si-mesmo. Como realizado tem que usar a forma da vida, que é essencialmente a realização; como realizado em si-mesmo tem que tirar de si a matéria em que realiza.»
Eu não tenho hoje pelo casamento aquele horror de outrora, comparável ao horror do cavalo selvagem pela manjedoura. Bem ao contrário: tenho corrido tanto pelo descampado da sentimentalidade, que uma manjedoura confortável em que mãos benévolas me sarrotem uma palha honesta - sorri-me como uma entreaberta paradisíaca. Eu precisava de uma mulher serena, inteligente, com uma certa fortuna (não muita), de carácter firme disfarçado sob um carácter meigo - que me adoptasse como se adopta uma criança: que me pagasse o grosso das minhas dívidas, me obrigasse a levantar a certas horas, me forçasse a ir para a cama a horas cristãs - e não quando os outros almoçam - que me alimentasse com simplicidade e higiene, que me impusesse um trabalho diurno e salutar, e que, quando eu começasse a chorar pela Lua, ma prometesse - até eu a esquecer... Esta doce criatura salvaria um artista de si mesmo - que é o pior abismo de um artista - e faria uma daquelas obras de caridade que outrora levavam gente ao Calendário. Mas, ai! Onde está esta criatura ideal? Onde está esta luz no mar, esta torre de segurança, esta fonte de caridade? A não ser nalgum romance inédito de Octave Feuillet - em parte nenhuma.
Monoliths
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Two vertical structures side by side. One is a historical symbol of the
past. Beside it, a minimalist, empty box contrasts, resembling a teleporter
connec...
FALECEU O LIMPINHO
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A Notícia é de todo inesperada, mas a vida tem destas coisas, faleceu o
nosso colega JOSÉ JOAQUIM LIMPINHO SILVÉRIO
Era uma presença habitual nos nossos enc...
28º ENCONTRO NAS CALDAS DA RAINHA
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No próximo Sábado a malta do Batalhão da Cavalaria 8322-74 vem até às
Caldas da Rainha para mais um encontro, a nossa aventura no Leste de Angola
durou s...
SAUDADES DE NÓS PRÓPRIOS
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Este Verão encontrei por mero acaso um casal amigo que estavam acompanhados
por um outro casal , este de Santarém.
Estes amigos contaram-me que rarament...
em sentido
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pouco custou deixar de escrever. Nada valia o que parece. Preguiças
figuronas. Porque hoje os telejornais põem o povo em sentido. Aos médicos
mandam emigra...
things of beauty
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*There ought to be gardens for all months in the year,*
*in which, severally, things of beauty,*
*may be then in season.*
Sir Franci...
melancolias
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Será que perdemos noção da importância de estar, simplesmente, tristes?
Depression may also be melancholy: it may be discouragement,
disappointment, abando...